SOBRECARGA FEMININA NA PANDEMIA

SOBRECARGA FEMININA NA PANDEMIA

Maio é marcado por comemorações repletas de amor e gratidão no Dia das Mães e Dia Internacional da Família. Mas realidade das mulheres brasileiras nunca foi fácil, uma vez que a grande maioria sempre teve que conciliar trabalho doméstico e vida profissional. E esse cenário se agravou drasticamente após mais de um ano de pandemia. Do aumento da violência doméstica e da morte de profissionais na linha de frente de combate à Covid-19, ao crescimento do desemprego e da sobrecarga dos trabalhos de cuidado, as mulheres integram um dos grupos mais vulneráveis e merecem toda a nossa atenção nesse sentido. Sabemos que essa vulnerabilidade não é atual, porém temos ciência de que ela foi agravada em 2020 e 2021.


Há 30 anos o Brasil não registrava uma participação feminina tão baixa no mercado de trabalho. Do terceiro trimestre de 2019 até o mesmo período de 2020, foram 5,7 milhões de postos de trabalho perdidos. Para complicar ainda mais a situação, além do desemprego, houve um aumento do trabalho invisível, uma vez que 50% das mulheres passaram a cuidar de alguém com a crise sanitária. Cuidar de alguém ainda é um trabalho extremamente desvalorizado em contraponto à sua enorme importância.


Mulheres também são maioria na linha de frente de combate à Covid-19. Elas são 70% dos profissionais de saúde que não medem esforços para salvar vidas e renovar a esperança da sociedade. Mulheres que se arriscam diariamente, inclusive expondo seus familiares a mais riscos de contaminação devido à sua profissão, mas que encaram o medo, a angústia e as tristezas de conviverem tão de perto com a morte numa rotina extremamente desgastante.


Outra questão que merece análise é a realidade das mães solo. Elas são mais de 11,5 milhões no Brasil e acumulam, sozinhas, o cuidado e a educação dos filhos por causa do fechamento de creches e escolas, sofrem com a sobrecarga mental e o peso de sustentar a família. Ao observar a rotina da mãe solo, percebe-se, de forma mais intensa, as injustiças de gênero. A maternidade fica precarizada. Além das consequências serem violentas para as mães, são também para os filhos. E isso é um problema de todos, uma vez que a relação saudável entre mães e filhos é a base para a construção da identidade da criança e do nosso futuro enquanto sociedade.


A conclusão a que se chega é que, quando uma mãe está mal, a infância também é prejudicada. Por isso, é preciso pensar em políticas públicas com urgência para minimizar esses impactos e devolver às mulheres brasileiras melhores condições de vida, trabalho e saúde física e mental. A crise sanitária e econômica aumentou a desigualdade e torna urgente a criação de novos empregos com salários dignos e de fortalecimento das redes de segurança social para que essas mulheres possam reencontrar seu lugar ao sol no mercado de trabalho no futuro pós-pandemia. Não existe milagre. Será preciso muito trabalho por parte dos gestores públicos, empresas e organizações para cuidar e valorizar essas mulheres - que são 51,8% da população - como elas merecem.

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